Agosto 26, 2008...1:44 am

Eu sou muito 77

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Bem, tudo começou na aula de Cidadania da professora D.. Ela mostrou uma foto dos acusados do assassinato do menino João Hélio sendo agarrados pelo pescoço pelos policiais que os capturaram. Os policiais estão rindo, forçando os rapazes a mostrarem o rosto pra câmera fotográfica.
Estávamos em debate na sala e ela perguntou tão somente o que achávamos da foto. Eu disse que gostava da foto. Que queria ter dado uma enforcadinha de leve neles também.
O debate pipocou. “E os direitos humanos?”, “É muito fácil se projetar no lugar da mãe do João Hélio, mas e as mães dos acusados?”, “Você não pensa nas mães desses rapazes vendo essa foto?”, “Haja com racionalidade”, “Pensando assim você se iguala a eles!”.
Opa. “Pensando assim você se iguala a eles!” soou forte pra mim. Foi essa frase que me calou no debate. Nem tive mais forças pra argumentar que as próprias mães deles declararam que preferiam mil vezes estar no lugar da mãe do João Hélio, que se solidarizavam com ela, que estavam sentindo a mesma dor que ela… Saí de lá me achando mesmo tão assassina e cruel quanto aqueles caras… Isso foi na segunda-feira.
Na quinta-feira, aula de Psicologia da Comunicação da professora A.. Tarefa do dia – no caso, da noite – assistir ao filme alemão A experiência e depois escrever um texto sobre ele – que é este aqui.
A experiência se passa no subsolo de uma faculdade de medicina e é monitorada por professores/médicos. Nela, 20 homens selecionados e testados terão que se dividir: 12 como prisioneiros e 8 como policiais. E conviver por 15 dias em troca de um bom dinheiro. Todos os ambientes terão câmeras 24 horas por dia para que a equipe possa analisar a convivência entre os dois grupos criados. Big Brother pouco é bobagem!…
Bem, pra resumir bastante, a experiência não dura nem 10, que dirá 15 dias. A rivalidade entre os grupos toma proporções enormes, que ultrapassam os limites da experiência.
Identificação total minha com o taxista que integra o grupo dos presidiários. O 77 – os presos eram denominados por números – é aquele que ao invés de pensar só em si, pensa no coletivo, no grupo, e só se ferra. Bem eu.
Pra exemplificar: estão todos os presos tomando café da manhã e os guardas alertam que eles não podem deixar nada, têm que comer tudo. É quando um deles diz que não toma leite. Os guardas ameaçam, o preso fica aflito. O 77 vai, pega a caixinha de leite e bebe toda. Salvou o colega…
… e se ferrou e ferrou o grupo! Os guardas mandam que eles façam flexões, por conta do “desacato” de 77.
O 77 fica marcado, claro. E sofre um bocado nas mãos dos policiais, porque não baixa a cabeça nunca. Eles chegam ao ponto de “seqüestrá-lo”, driblando as câmeras e tudo mais. Levam o 77 pra uma sala escura onde possam conversar melhor com ele. Lá, além de apanhar, ter o cabelo raspado e agüentar cada um dos policiais fazerem xixi nele, o 77 também ouve um conselho: que no dia seguinte ele peça pra sair da experiência.
Ele não pede pra sair, claro.
O filme peca ao querer transformar o 77 em um super-herói. Ele é claustrofóbico. Em um determinado momento se vê trancado em uma caixa preta onde ele só cabe se for agachado – situação parecida com a que Pedro Bala, o chefe dos Capitães da Areia – livro de Jorge Amado – passou na cafua do reformatório, que ficava no vão debaixo da escada, o impedindo de ficar de pé também. É a retirada da dignidade; o igualamento aos animais rastejantes.
Mas assim como Pedro, o 77 não era um homem qualquer. Ele não só consegue se libertar da caixa preta como também salvar seus companheiros – eu comentei que ele era meio MacGyver e é, claro, ninguém na minha sala sabia quem era o MacGyver!
O elo entre a aula da professora D. com a da professora A. se deu quando o 77, depois de uma luta espetacular, conseguiu imobilizar seu principal algoz. Ele fica por cima do bandido com as mãos justamente no pescoço dele! Ahá!
Ele poderia matar o cara se quisesse, tanto que o rosto do outro já estava começando a ficar roxo e transfigurado. É quando um companheiro de cela dele diz: “Ei, você já venceu, não vale a pena, vamos embora”. Ele dá mais uma enforcadinha no cara e o larga, indo embora tranquilamente rumo à liberdade, não se igualando ao cara, afinal.
O filme conta aquela velha história de que se você quer conhecer realmente o caráter de alguém é só dar poder a ele… Mas conta também que às vezes é preciso a gente dar uma enforcadinha sim, pra extravasar, e que ela não nos iguala ao bandido coisa nenhuma. Ela nos liberta.
A velha e boa catarse.

PS – Texto feito ano passado para a disciplina Psicologia da Comunicação. :)

3 Comentários

  • Mas é uma enforcadinha bem diferente da outra…

    Esta está mais para uma hipotética enforcadinha dos assassinos do J. Hélio nos policiais que os humilhavam.

  • Esse filme me deixou pensativo durante dias, lembro que gostei bastante do texto que havia feito na época. Já, sobre o texto, penso o seguinte: se você condena à morte alguém que matou uma pessoa (um exemplo), então, você está se comportando da mesma maneira que ele, logo, não o condenou por nada.

    ;)

    P.S.: Adorando o blog.

  • Ei, eu conheço o MacGyver.
    E o mundo de algodão doce e ursinhos carinhosos da Danila é tão chato ;P


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