Essa é uma matéria que fiz para o jornal onde trabalho (vamos fingir que ninguém sabe qual é.
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No lugar do diálogo, a ameaça. No lugar da campanha, a bala. Há muito tempo não se via um clima tão violento nas eleições do interior do Estado. O Pará é o campeão em número de municípios que terão a segurança sob a responsabilidade de tropa do Exército, no dia da eleição. De 105 municípios do Brasil que fizeram o pedido, 95 são paraenses.
O doutor em ciência política Carlos Augusto Souza diz que, no interior, eliminar o candidato é uma das formas de impedir com que ele consiga se eleger. ‘Grande parte das políticas públicas locais fica nas mãos de prefeitos e vereadores. E como o município não tem condições de atender toda a demanda de reivindicações, acaba priorizando o que considera ser mais importante. Com isso, entra em conflito com os interesses de terceiros. Por esse motivo, a incidência de crimes no interior no período de eleições aumenta consideravelmente’, explica.
No Pará, já foram registrados o assassinato de um candidato a vereador em Uruará, no oeste do Estado, e do candidato do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) a prefeito de Rio Maria, Agemiro Gomes da Silva, executado com um tiro na nuca. Ele já havia sobrevivido a outro atentado. O vereador de Tomé-Açu, Bruno Spinasse, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), também sofreu na mão dos criminosos. Ele foi baleado no braço em uma tentativa de assalto, quando estava acompanhado do prefeito do município, Franciscos Eudes Lopes Rodrigues. Além disso, um trio elétrico do candidato a prefeito de Capitão Poço, Raimundo Belo, foi incendiado por três homens.
A violência, principalmente no plano local, segundo o cientista político, ocorre em função da cidadania inserir novos setores que contestam as autoridades. ‘Na época da ditadura, por exemplo, isso era muito mais difícil. Já na democracia, existem movimentos populares que reivindicam seus direitos. Se a liderança local não estiver satisfazendo o eleitor, a solução encontrada pode não ser tão passiva. Mas, como o crime é algo que está à margem da lei, ‘terceirizar’o serviço é algo muito comum. O político ou o líder de um movimento popular não vão sujar as mãos com a execução do trabalho ‘sujo’’, considera Carlos Augusto Souza.
O cientista político lembra que, muitas vezes, os problemas são decorrentes de outros conflitos – como os relacionados à terra, mineração e madeira – que também se articulam com as eleições.
O coordenador de Serviços Gerais Tribunal Regional Eleitoral, Flávio Rocha, informou que o pedido de tropas federais é feito através de uma consulta nos cartórios eleitorais. É analisada a situação política de cada município. ‘Nós fazemos o possível para garantir a realização das eleições. Mas quando a eleição é municipal, isso é ainda mais complicado, já que a disputa local gera algumas animosidades. A segurança, nesses casos, é insuficiente’, informou.
MUNICÍPIOS
O procurador da República Ubiratan Cazetta, procurador regional eleitoral, informou que entre os municípios que com histórico de violência estão Capitão Poço, Viseu, Concórdia do Pará, Barcarena e Curuçá. ‘Em alguns casos, apesar de terem sido crimes contra políticos, nem sempre são eleitorais’, diz o procurador.
Segundo Ubiratan Cazetta, o monitoramento dos municípios é feito junto com a Secretaria de Segurança (Segup) para tentar prevenir a violência no período das campanhas políticas e eleições. ‘Viseu, por exemplo, está com um efetivo de policiais muito pequeno, o que não é suficiente. Por isso, o município não terá zona eleitoral. Ele não tem a mínima condição de segurança’, disse. Já em Barcarena, nordeste do Estado, a distância de postos policiais e a falta de estrutura do município são agravantes para provocar a violência.
Sobre o caso do vereador Bruno Spinasse, o procurador acredita que o crime não teve motivação política. É mais provável mesmo que tenha sido um assalto. ‘Nada indica que a intuição do vereador seja verdadeira. Ele apenas supõe que os assaltantes queriam matar o prefeito de Tomé-Açu’, constatou.
Vereador acredita em motivação política no baleamento de que foi vítima
No dia 19 de deste mês, o vereador do município de Tomé-Açu, Bruno Spinasse, foi baleado no braço ao reagir contra o que, a princípio, seria um assalto. O crime ocorreu por volta de 10h da manhã, na avenida Sezerdelo Corrêa, entre as avenidas Gentil Bittencourt e Brás de Aguiar, em Belém. O vereador estava acompanhado do prefeito Tomé-Açu, Francisco Eudes Lopes Rodrigues, que também é filiado ao PSDB. ‘Eu não acredito que tenha sido um assalto. Porque quando a pessoa quer roubar alguma coisa, ela não chega atirando. Os bandidos foram na minha direção’, disse o prefeito.
O prefeito de Tomé-Açu diz que recebe constantes ameaças, inclusive de um deputado federal. ‘Eu tenho tudo gravado. Tenho, inclusive, uma ação na Justiça contra o deputado. O Bruno também está sendo ameaçado todos os dias no próprio hospital. Já até o aconselhei a desligar o telefone. Ele ainda está em recuperação ‘.
FUGA
Francisco Eudes Lopes Rodrigues declarou que foi abordado quando estava saindo de uma ótica. ‘Estava acompanhado da minha filha e do Bruno. Quando saí do local para pegar o carro, eles vieram em minha direção e minha filha se assustou. Foi quando Bruno entrou na minha frente antes que eu fosse atingido’, explicou. Os dois acusados chegaram ao local de bicicleta e fugiram em uma moto. Os policiais já têm informações sobre os dois suspeitos de terem atirado no vereador.
O caso mais recente aconteceu no dia 26 de agosto, em Capitão Poço. Três homens incendiaram o trio elétrico do candidato a prefeito Raimundo Belo, do Partido Popular (PP). O veículo estava localizado nos fundos da casa dos pais do candidato. O fogo começou quando os criminosos jogaram duas garrafas com gasolina e, possivelmente, uma estopa com fogo. Eles fugiram em seguida em uma caminhonete. Dois suspeitos já foram presos.
Cientista político vê inutilidade na mobilização de tropas federais
A violência no período das eleições é histórica no Pará. Em 1950, por exemplo, a disputa acirrada entre Magalhães Barata e Zacharias de Assunção gerou vários conflitos. O cientista político José Carneiro diz que, na época, esse tipo de acontecimento era justificável, já que existiam várias formas de fraudar a votação. ‘O Zacharias de Assunção mandava estragar as urnas de todas as zonas eleitorais onde o Magalhães Barata estava vencendo. Tanto que, nesse período, tiveram que fazer eleições suplementares em vários municípios do Estado. Só depois é que Assunção foi confirmado como governador do Pará’, informou.
José Carneiro acredita que o envio de tropas federais é um exagero. Segundo ele, isso é coisa do passado. ‘Hoje, com a informatização das urnas, o clima político pesado entre os candidatos não atrapalha na apuração dos votos, por exemplo. As tropas federais vão garantir o quê? Eles mandam um efetivo de apenas seis soldados do Exército que, no final das contas, ficam passeando. Em 1966, me mandaram para Castanhal na época das eleições, e foi isso que fiz. É só um efeito cênico, não moral’, informou.
Segundo o cientista político, o país vive em outra época, mas insiste em se prender ao passado. ‘Tudo vem em disquete ou CD, já vivemos em outro mundo. As eleições estão muito mais limpas e transparentes. Bebida, por exemplo, não é um empecilho na hora da votação. Mas é lei. Não se consegue mais fraudar mapas de votação. Isso, se acontecer, só pode ser pelo TRE, o que acho bastante difícil.’