A população dos bairros do Guamá e da Terra Firme, que antes era acostumada a ver as ruas dominadas por bandidos, agora convive diretamente com a polícia. São doze viaturas, cada uma com três homens, um helicóptero e mais duas lanchas no canal do Tucunduba. Algo tão diferente da realidade desses bairros faz com que os moradores pensem que estão dentro de um filme policial americano. Um verdadeiro espetáculo. Mas, apesar de todo esse aparato, a operação ‘Força pela Paz’, deflagrada pelo governo do Estado na última segunda-feira, 1º, não conseguiu impedir que dois homicídios acontecessem no bairro da Terra Firme somente na quinta-feira.
A opinião da população sobre o reforço no policiamento é unânime. A esperança de dias mais tranqüilos vai acabar junto com o prazo de validade da operação, no final deste mês. É o que diz a comerciante Alexandra Cristina da Silva, que reside no bairro da Terra Firme há 13 anos. ‘Moro na passagem Lauro Sodré, uma das mais perigosas da Terra Firme. Já cansei de ouvir comentários sobre assaltos e homicídios na região. Quando a operação ‘Força pela Paz’ chegou ao bairro, muita coisa mudou para melhor. Mas me entristece saber que quando os policiais tiverem que ir embora tudo vai voltar a ser como era antes ou até mesmo pior’, disse.
O vendedor ambulante José Pereira de Souza, de 62 anos, disse que já está acostumado com os constantes assaltos na Terra Firme. ‘Já fui assaltado quatro vezes. Na última, os bandidos me machucaram. Eles estavam armados com facões. Foi lá na Mundurucus, que é o setor da bandidagem. Eles ficam esperando o pessoal passar para roubar; os assaltantes não têm dó de ninguém. De vez em quando ficam me observando para assaltar a minha barraca, mas não sabem que, muitas vezes, não tenho nem o dinheiro da merenda’, informou.
De acordo com José Pereira de Souza, enquanto os policiais estiverem fiscalizando o bairro vai ser muito bom. ‘Depois que eles chegaram, a situação melhorou, os crimes diminuíram bastante. Se os policiais ficassem aqui por pelo menos um ano, a violência acabaria’, disse o vendedor ambulante.
O eletricista Washington Campos da Silva acredita que o reforço no policiamento é essencial, já que a situação de violência nos bairros da Terra Firme e Guamá está muito ‘pesada’. ‘Espero que a operação continue. A população desses bairros pede socorro’, ressaltou.
Polícia não divulga dados sobre criminalidade
O subcomandante do Comando de Policiamento da Capital (CPC), o major Saraiva, disse que a operação escolheu os pontos de ação da polícia de acordo com o número de homicídios por habitante. Além da Terra Firme e do Guamá, os bairros da Cremação, Jurunas, São Brás e Marambaia também receberam reforço no policiamento. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Estadual de Segurança (Segup) do Pará, os dados estatísticos da criminalidade nessas regiões não puderam ser divulgados, pois são consideradas informações estratégicas no combate à violência. Mesmo assim, não é novidade para ninguém que esses bairros pediam ’socorro’ há muito tempo.
As rondas são feitas dia e noite. O posto da operação, que fica no centro da Terra Firme, também funciona 24 horas. O comandante da ‘Força pela Paz’, major Armando, informou que o trabalho está sendo feito somente com a elite da Polícia Militar: Cavalaria, Tático, Choque, Rotam, Comando de Operações Especiais, entre outros. Policiais civis, agentes do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) e integrantes do Corpo de Bombeiros também participam da operação.
CRIMES
Após trinta minutos que a reportagem de O LIBERAL saiu da Passagem Marinho, na Terra Firme, um homem foi assassinado com doze tiros. O crime, que aconteceu na quinta-feira, 4, pode ter sido motivado pelo envolvimento da vítima com o tráfico de drogas. José Silva Araújo, conhecido como ‘Peru’, já teve várias passagens pela polícia. A Seccional Urbana do Guamá sabe o nome do possível autor dos disparos, mas preferiu não divulgar para não atrapalhar as investigações. Esse foi o primeiro caso de homicídio registrado após a chegada da operação ‘Força pela Paz’.
O acusado do homicídio seria um traficante que age na Terra Firme e Guamá, que estaria disputando pontos de tráfico de drogas. Provavelmente, o assassinato de José Araújo tem ligação com outro crime, que aconteceu há duas semanas no mesmo bairro. A sobrinha da vítima, Carla Araújo, disse que o tio foi morto porque testemunhou um homicídio há alguns dias. Ela informou ainda que os criminosos aparentavam ter menos que 18 anos e seriam os mesmos que praticaram o assassinato testemunhado por José Araújo.
No mesmo dia, às 22 horas, Elton Alan Paiva, de 25 anos, também foi assassinado. O crime aconteceu na Passagem Lauro Sodré, entre as Passagens Trindade e Liberal. Segundo a polícia, existe suspeita de acerto de contas. O subcomandante do Comando de Policiamento da Capital (CPC), major Saraiva, disse que mais um homicídio aconteceu na Marambaia, mas não soube informar detalhes do crime.
Cientista política defende política contínua de combate à violência
A doutora em Ciência Política, Kátia Mendonça, que também trabalha com educação para a não violência e ética, acredita que a operação ‘Força pela Paz’ é apenas mais uma medida espetacular do governo atual. Segundo ela, esse tipo de trabalho é como os fogos de artifício, que queimam, deslumbram e desaparecem. ‘O governo estadual, dias após a posse, desencadeou algo semelhante em termo de segurança pública. Foi uma operação de efeito espetacular e efemero que durou poucos dias. Nesses dois anos, não se viu uma política consistente e contínua de segurança pública’, informou.
De acordo com Kátia Mendonça, o pouco de eficácia que se tinha era com as Zpols (Zonas de Policiamento), a integração policial e o patrulhamento constante e persistente de todas as zonas da cidade, que foram destruídos. ‘Ou seja, ficamos sem ações concretas e articuladas em termos de segurança. A cidade ficou à mercê de uma criminalidade crescente em todos os bairros. Raro é voce encontrar um policiamento ostensivo, como o da Polícia Militar, em qualquer região da cidade’, disse a cientista política.
Tentar resolver o problema em apenas alguns bairros, quando a violência campeia em toda cidade, segundo Kátia Mendonça, é absolutamente inconsistente. Para ela, é normal que a população tenha medo do retorno da violência em escala maior. ‘Isso nao é politica de segurança pública, constitui-se antes em uma falácia’, disse.
Kátia Mendonça disse ainda que medidas simples, como a iluminação de vias articulada com o policiamento, podem surtir o efeito desejado. A polícia comunitária que, de acordo com a cientista política, nunca foi valorizada, quando bem capacitada e com as pessoas certas envolve a comunidade no processo e todos se ajudam. Mas ela lembra que segurança pública não é só policiamento, implica em diversos fatores.
Os homicídios em plena operação ‘Força pela Paz’, segundo Kátia Mendonça, mostram que o poder público perdeu a autoridade. ‘Há um mapa da violência que se articula com um quadro socioeconômico, mas, além disso, o que se vê é um quadro de desarticulação dos laços morais, sociais e de civilidade. A morte foi banalizada e a arma é a estratégia de resolução de qualquer conflito’, explicou.
A cientista política considera que Belém está diante de um gravíssimo quadro de comportamentos violentos que vão além de questões de ordem socioeconômica. ‘Iniciam-se pela ausência de referencial e exemplo ético do Estado brasileiro e continuam pela cópia de outros comportamentos violentos. Creio que o governo tem que criar ou retomar medidas contínuas e concretas de segurança pública se quiser efetividade imediata’, completou.